Pular para o conteúdo principal

Referência rápida — Notação de circuitos digitais

Para que serve esta página

Um diagrama de circuito é um texto: cada forma tem um significado fixo, e ler o desenho errado leva a montar o circuito errado. Esta página reúne, em um lugar só, toda a simbologia usada nos diagramas desta disciplina — a mesma que aparece nas aulas, nas provas e na tela do Logisim.

Ela não explica como os circuitos funcionam: isso é o assunto da Revisão de Fundamentos de Circuitos Digitais e da Aula 3. Aqui o objetivo é outro — traduzir o desenho.

Versão para imprimir

O mesmo conteúdo cabe em duas páginas A4, frente e verso: combinacional na frente, sequencial e equivalência com o Logisim no verso.

⬇ Baixar o cartão de referência (PDF, 2 páginas A4)

Imprima em frente e verso e deixe ao lado do teclado durante as atividades no Logisim.

Qual padrão de símbolos

Todos os diagramas usam a simbologia ANSI/IEEE 91, também chamada de formas distintivas: o AND tem a lateral reta e a frente arredondada, o OR tem a traseira côncava, o XOR acrescenta a segunda curva. É o padrão adotado no livro-texto, nas figuras desta disciplina e no Logisim.

Existe um segundo padrão, o IEC 60617-12, em que toda porta é um retângulo com um qualificador dentro (& para AND, ≥1 para OR, =1 para XOR). Você vai encontrá-lo em livros europeus e em documentação de fabricantes — mas não é o usado aqui.


1. Portas lógicas

Sete portas lógicas em duas fileiras, cada uma com duas entradas rotuladas A e B à esquerda e uma saída S à direita, e a expressão booleana correspondente abaixo. Na primeira fileira, AND, OR, NOT e NAND; na segunda, NOR, XOR e XNOR. As portas NAND, NOR e XNOR trazem um pequeno círculo na saída
A bolha na saída é o que separa cada porta da sua negação: NAND é AND com bolha, NOR é OR com bolha.
ABANDORNANDNORXORXNOR
00001101
01011010
10011010
11110000

Para as portas de uma entrada:

ANOTBUFFER
010
101

Três regras de leitura que valem sempre:

  1. A bolha () é uma inversão. Na saída, ela nega o resultado da porta. Na entrada, ela nega aquele sinal antes de ele entrar na porta — é assim que se desenha uma entrada ativa em nível 0.
  2. A forma diz a função, o tamanho não. Uma AND de quatro entradas é a mesma forma, mais alta.
  3. Complemento se escreve A no desenho e A' quando a barra não for viável (e-mail, código, arquivo de texto).
NAND e NOR são universais

Qualquer função booleana pode ser construída usando apenas NAND, ou apenas NOR. É por isso que essas duas portas dominam os circuitos integrados reais: um único tipo de célula resolve o projeto inteiro.


2. Fios, junções e barramentos

Metade dos erros de montagem no Logisim não está nas portas — está na fiação. Estes seis símbolos resolvem quase todos.

Seis quadros de notação de fiação. Em (a), dois fios que se cruzam com um ponto preto cheio no cruzamento, indicando conexão. Em (b), o mesmo cruzamento sem ponto, indicando que os fios apenas se cruzam. Em (c), uma linha grossa âmbar cortada por uma barra oblíqua com o número 8 acima, representando um barramento de oito bits. Em (d), um splitter: um barramento âmbar que se abre em quatro linhas finas rotuladas bit 3 a bit 0. Em (e), duas caixas idênticas rotuladas CK, cada uma com um fio à esquerda, representando dois túneis de mesmo nome. Em (f), um buffer triangular com entrada A, saída S e uma linha de habilitação EN chegando por cima
O ponto de junção é a diferença entre dois fios conectados e dois fios que apenas se cruzam no papel — o erro mais comum na leitura de um esquema.
SímboloO que significa
Ponto cheio no cruzamentoos dois fios são o mesmo nó elétrico
Cruzamento sem pontoos fios apenas se cruzam no desenho; não há ligação
Traço grosso com barra oblíquabarramento; o número sobre a barra é a largura em bits
Splittersepara um barramento em bits individuais — ou junta bits em um barramento
Túneldois pontos com o mesmo rótulo são o mesmo nó, sem fio desenhado entre eles
Tri-state (buffer com EN)com EN = 0 a saída se desliga do fio e fica em alta impedância (Z)
Z e X não são níveis lógicos
  • Z — alta impedância: a saída existe mas está desligada do fio. É o que permite vários dispositivos compartilharem o mesmo barramento, um de cada vez.
  • X — indefinido: o fio não tem nenhuma fonte, ou tem duas em desacordo.

Nenhum dos dois é "um terceiro valor lógico". São estados do fio, não da lógica — e quase sempre indicam erro de montagem.


3. Entradas, saídas, constantes e clock

Oito símbolos de fronteira do circuito, em duas fileiras. Na primeira, um quadrado com o valor 1 dentro (pino de entrada), um círculo com o valor 0 dentro (pino de saída), um retângulo com 0xF dentro (constante) e um retângulo com uma onda quadrada desenhada dentro (clock). Na segunda, uma barra horizontal sobre uma linha vertical (VCC), três barras decrescentes sob uma linha vertical (GND), um triângulo com barra à frente (LED) e um retângulo cinza com o valor 1011 (sonda)
Pino de entrada é quadrado, pino de saída é redondo: a forma diz por onde o valor entra e por onde ele sai.

O nível lógico de qualquer linha é sempre um destes dois:

  • 0 — nível baixo, 0 V, falso;
  • 1 — nível alto, o valor de VCCV_{CC}, verdadeiro.

O clock é o único componente que muda sozinho: ele alterna entre 0 e 1 no tempo, e é o que dá aos circuitos sequenciais a noção de "agora".


4. Seleção e decodificação

Três blocos. Em (a), um trapézio com a base maior à esquerda, rotulado MUX, com quatro entradas I0 a I3 do lado largo, uma saída S do lado estreito e duas entradas de seleção s1 e s0 chegando pela base inclinada de baixo. Em (b), o trapézio espelhado, rotulado DMX, com uma entrada E do lado estreito e quatro saídas S0 a S3 do lado largo, mais as duas entradas de seleção. Em (c), um retângulo rotulado DEC 3x8 com três entradas A0 a A2 à esquerda e oito saídas S0 a S7 à direita, das quais quatro são mostradas e as demais indicadas por reticências verticais
O trapézio é a forma canônica de multiplexador e demultiplexador — a base maior fica sempre do lado com mais linhas.
BlocoEntradas → saídasO que faz
Multiplexador (MUX)2n2^n dados + nn de seleção → 1copia na saída a entrada cujo número está na seleção
Demultiplexador (DEMUX)1 dado + nn de seleção → 2n2^nleva a entrada para uma das saídas; as demais ficam em 0
Decodificadornn2n2^na saída de número AA vai a 1; todas as outras ficam em 0
Codificadoraté 2n2^nnncaminho inverso: a entrada ativa vira seu número em binário

A seleção entra sempre pela base inclinada do trapézio, nunca pelo lado dos dados. Quando você vir uma linha chegando por baixo, é seleção — não é mais um dado.

O codificador do Logisim é de prioridade

O componente Priority Encoder do Logisim resolve o caso de duas entradas ativas ao mesmo tempo escolhendo a de maior índice. O codificador simples do livro-texto não define esse caso — ele pressupõe que só uma entrada está ativa.


5. Aritmética: somadores e ULA

Esquema do somador completo de um bit: duas portas XOR em cascata produzem a soma S a partir de A, B e Cin; duas portas AND e uma OR produzem o vai-um de saída Cout
O somador completo de um bit — o bloco que, repetido, forma o somador de qualquer largura.
ABCinC_{in}SCoutC_{out}
00000
00110
01010
01101
10010
10101
11001
11111

O meio somador é o mesmo bloco sem CinC_{in}: uma XOR para a soma e uma AND para o vai-um. Ele só serve para o bit menos significativo — a partir do segundo, é preciso receber o transporte do anterior.

Bloco da unidade lógica e aritmética, desenhado como um trapézio invertido com um recorte em V no topo. Dois barramentos âmbar entram pelo topo, rotulados A e B, um de cada lado do recorte; um barramento sai pela base, rotulado R; uma linha entra pela lateral esquerda, rotulada op; uma linha sai pela lateral direita, rotulada flags
O recorte em V no topo é a marca da ULA: ele separa visualmente os dois operandos.

As flags que aparecem no restante da disciplina são quatro:

  • Z (zero) — o resultado é zero;
  • C (carry) — houve transporte para fora do bit mais significativo;
  • N (negative) — o bit mais significativo do resultado é 1;
  • V (overflow) — o resultado não cabe na largura da palavra, em complemento de dois.

6. Latch: sensível a nível

Esquema com duas portas NOR, uma acima da outra. A entrada R chega à entrada externa da NOR de cima, cuja saída é Q; a entrada S chega à NOR de baixo, cuja saída é Q barrado. Duas linhas âmbar cruzam o vão central levando cada saída à entrada interna da porta oposta
O laço RS com NOR: cada porta enxerga a saída da outra, e é isso que cria a memória.
SRQ
00mantém o valor anterior
010 (reset)
101 (set)
11proibido — as duas saídas vão a 0 e deixam de ser complementares

Enquanto o nível de habilitação estiver ativo, o latch segue a entrada — inclusive o ruído. É essa a diferença para o flip-flop, que só olha para a entrada num instante.

Com NAND tudo se inverte

O mesmo laço construído com duas NAND tem as entradas ativas em 0 — passam a se chamar S e R — e a combinação proibida deixa de ser 1 1 e passa a ser 0 0.


7. Flip-flop: disparado por borda

Dois blocos retangulares idênticos, cada um com entradas J e K à esquerda, saídas Q e Q barrado à direita e uma entrada de clock CK no meio da lateral esquerda, marcada por uma pequena cunha triangular. No bloco (a) há um círculo entre a cunha e a borda; no bloco (b) não há círculo
A cunha marca a entrada dinâmica; o círculo diante dela troca a borda ativa da subida para a descida.

Dois detalhes do símbolo carregam toda a diferença de comportamento:

  • A cunha () na entrada de clock diz que o bloco é disparado por borda. Sem ela, o bloco é um latch, sensível a nível.
  • A bolha diante da cunha diz que a borda ativa é a de descida (1 → 0). Sem bolha, a borda ativa é a de subida (0 → 1).
Bloco de flip-flop JK com entradas J e K à esquerda, clock com cunha e círculo, saídas Q e Q barrado à direita, mais duas linhas verticais: Preset barrado entrando pelo topo e Clear barrado entrando pela base, cada uma com um círculo de inversão junto à borda do bloco
Preset e Clear entram pelo topo e pela base, e agem sem esperar o clock.

PR (Preset) e CLR (Clear) são assíncronas: elas forçam a saída na hora, independentemente do clock. A barra sobre o nome e o círculo no símbolo dizem que são ativas em 0. As duas não podem valer 0 ao mesmo tempo — isso pediria que Q fosse 1 e 0 simultaneamente.

As quatro variantes, lado a lado:

TipoEntradasSaída após a borda ativa
SRS, R0 0 mantém · 0 1 → 0 · 1 0 → 1 · 1 1 proibido
JKJ, K0 0 mantém · 0 1 → 0 · 1 0 → 1 · 1 1 inverte
TT0 mantém · 1 inverte (divide a frequência por 2)
DDcopia D

O T sai do JK com J = K; o D sai do JK com K = J.


8. Registradores e contadores

Três blocos azul-claros com cantos arredondados. Em (a), um bloco REG de n bits com barramento âmbar de dados D entrando à esquerda e Q saindo à direita, mais as linhas CK, com cunha de entrada dinâmica, e EN. Em (b), um bloco CONT de módulo 16 com entradas CK e CLR e barramento de saída Q. Em (c), um bloco SHIFT de n estágios com entrada serial, entrada CK e quatro saídas paralelas
Registrador, contador e registrador de deslocamento: as mesmas caixas de memória, com entradas diferentes.

Nas figuras desta disciplina, azul claro significa memória — registradores, contadores, RAM e ROM. A cor não é decorativa: ela distingue, num diagrama de arquitetura, o que guarda estado do que apenas processa (azul escuro) ou entra e sai (cinza).

Um registrador de nn bits é literalmente nn flip-flops D compartilhando a mesma linha de clock. Um contador é um registrador com um circuito de incremento realimentando a própria entrada.


9. Memórias RAM e ROM

Dois blocos azul-claros. Em (a), RAM de 2 elevado a 10 por 8: barramento de endereço A de 10 bits entrando à esquerda, barramento de dados D de 8 bits à direita com setas nos dois sentidos, e as linhas WE barrado e CS barrado entrando à esquerda. Em (b), ROM de mesma capacidade, com o barramento de dados de mão única e apenas a linha CS barrado
O sentido do barramento de dados é o que distingue os dois blocos: bidirecional na RAM, de mão única na ROM.
LinhaNomeFunção
Aaddressbarramento de endereço; sua largura define quantas palavras existem
Ddatabarramento de dados; sua largura é o tamanho da palavra
WEwrite enable0 escreve, 1 lê (só existe na RAM)
CSchip select0 habilita o dispositivo; 1 o desconecta do barramento

A capacidade é sempre 2bits de enderec¸o2^{\text{bits de endereço}} palavras ×\times a largura da palavra. No exemplo: 210×82^{10} \times 8 bits = 1024 bytes = 1 KiB.

A barra sobre o nome (WE, CS) indica ativo em 0 — o sinal faz o que promete quando está em nível baixo. É uma convenção de toda a disciplina, não uma peculiaridade das memórias.


10. Cronogramas

Cronograma com três linhas de sinal. Na primeira, o clock CK alterna entre os níveis 0 e 1 formando uma onda quadrada; três linhas tracejadas âmbar marcam as bordas de subida. Na segunda, o sinal D de um bit muda de nível duas vezes. Na terceira, o barramento BUS é desenhado com duas linhas que se cruzam a cada troca de valor, mostrando 0x2A, depois 0x2B, e por fim um trecho hachurado marcado como indefinido
O cronograma mostra o comportamento no tempo — a dimensão que a tabela-verdade não tem.
ElementoSignificado
Degrau na linhatransição de nível
Linha tracejada verticalborda ativa: o único instante em que a saída de um flip-flop pode mudar
Duas linhas cruzandobarramento trocando de valor; o texto entre os cruzamentos é o valor
Trecho hachuradovalor indefinido ou don't care

A leitura mais importante do cronograma é negativa: entre duas bordas ativas, as entradas podem variar à vontade sem nenhum efeito sobre a saída. É exatamente isso que o sincronismo por clock compra.


11. Do símbolo ao Logisim

O Logisim organiza os componentes em bibliotecas, listadas no painel à esquerda. A tabela abaixo diz em qual biblioteca procurar cada símbolo desta página e quais atributos costumam precisar de ajuste no painel inferior.

SímboloBibliotecaComponenteAtributos que se costuma mexer
AND, OR, NAND, NOR, XOR, XNORGatesAND/OR/NAND/NOR/XOR/XNOR GateNumber of Inputs, Data Bits, Gate Size, Negate por entrada (é a bolha)
NOT, BUFFERGatesNOT Gate, BufferData Bits
Tri-stateGatesControlled Buffer/InverterControl Line
Pino de entrada / de saídaWiringPinOutput? (não = entrada), Data Bits, Label
Constante, VCCV_{CC}, GNDWiringConstant, Power, GroundValue, Data Bits
ClockWiringClockHigh/Low Duration
TúnelWiringTunnelLabel — mesmo rótulo, mesmo nó
SplitterWiringSplitterFan Out, Bit Width In, distribuição dos bits
Pull-up / pull-downWiringPull ResistorPull Direction
Sonda de valorWiringProbeRadix (binário, hexa, decimal)
LED, botão, displayInput/OutputLED, Button, Hex Digit Displaycor, Active On High
MUX, DEMUXPlexersMultiplexer, DemultiplexerSelect Bits, Data Bits, Include Enable?
Decodificador, codificadorPlexersDecoder, Priority EncoderSelect Bits
Somador, subtrator, comparador, deslocadorArithmeticAdder, Subtractor, Comparator, ShifterData Bits; o Adder já traz CinC_{in} e CoutC_{out}
Flip-flop SR, D, T, JKMemoryS-R/D/T/J-K Flip-FlopTrigger: rising ou falling edge
Registrador, contador, deslocamentoMemoryRegister, Counter, Shift RegisterData Bits, Trigger, Maximum Value (o módulo), Number of Stages
RAM, ROMMemoryRAM, ROMAddress Bit Width, Data Bit Width

Três coisas que o Logisim não traz prontas:

  • Meio somador e somador completo de 1 bit — monte com XOR e AND, como na Seção 5. O Adder da biblioteca Arithmetic já é de nn bits.
  • Latch RS e latch D — monte com NAND ou NOR, como na Seção 6. A biblioteca Memory só oferece flip-flops disparados por borda.
  • ULA — monte com um Adder, portas lógicas e um Multiplexer escolhendo qual resultado sai.
Cor de fio no Logisim é diagnóstico, não decoração
CorSignificado
Cinzafio sem valor definido (nada conectado)
Azulvalor indefinido (X)
Verde-escuro0
Verde-claro1
Pretobarramento de mais de um bit
Vermelhoconflito — dois valores diferentes na mesma linha
Laranjalarguras incompatíveis entre os dois lados da ligação

Vermelho e laranja sempre indicam erro de montagem. Corrija antes de continuar simulando.


Como usar esta página

  • Antes de montar um circuito no Logisim: confira na Seção 11 onde está cada componente.
  • Durante a leitura de um diagrama da aula: volte às Seções 1 a 10 para o símbolo que não reconhecer.
  • Na prova: o PDF de duas páginas traz o mesmo conteúdo em formato de consulta rápida.

Para aprofundar

  • CAPUANO, Francisco Gabriel. Sistemas digitais: circuitos combinacionais e sequenciais. São Paulo: Érica, 2014. — Ac.5012157
  • TOCCI, Ronald J.; WIDMER, Neal S.; MOSS, Gregory L. Sistemas digitais: princípios e aplicações. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2018. — Ac.131146
  • SILVA, Gabriel Pereira da. Arquitetura e organização de computadores: uma introdução. Rio de Janeiro: LTC, 2024. — Ac.5063593